A vizinhança sempre surpreende, de qualquer lugar, zona norte ou sul, classe A ou C. E quando você tem uma audição como a minha torna-se mais reveladora ainda. Não que eu seja uma mexeriqueira de plantão, uma dona Fifi, mas simplesmente não dá pra desprezar certos recortes de diálogos inimagináveis como os que eu tenho escutado.
Minha personagem tem o nome de protagonista de uma antiga novela de escravos. Seria mais fácil se eu citasse o nome, mas não sei porquê prefiro fazer lembrar que dizer. Na época, eu me derramava em lágrimas, condoída com o destino nefasto vivido pela minha mocinha predileta da novela das seis, que aliás fez da atriz Lucélia Santos uma atriz intercontinental.
Na vida real, muito mais real que desejamos, minha personagem de carne e osso trava uma batalha dramática contra a estrutura patriarcal doméstica. Talvez mãe solteira, talvez desempregada, talvez recém amasiada, talvez...tudo é suposição, porque os pseudo fatos me vem junto com o vento, em frases entrecortadas que me chegam como peças de um quebra cabeça que eu dedicadamente tento montar.
Minha personagem, em cima de uma laje, defende sua identidade aos berros, enquanto do outro lado, uma voz anciã e masculina repete incessantemente impropérios e palavrões que não se aprendem na escola. Palavras muito pesadas que há muito desonram as profissionais do sexo.
Eu penso: O que essa moça, de 31 anos, até a idade dela eu já sei, fez de tão grave pra ouvir esse tipo de coisa. Nenhuma resposta plausível me veio, cheguei a pensar em intermediar em favor dela, mas seria impensável, apesar de eu estar pensando muito seriamente nisso.
Os dias se passaram, as agressões não e as informações me fizeram entender o grande problema dela. É bem simples, ela não tem grana e colocou um homem pra morar com ela. E a gente sabe, se você não casa, não tem herança, nem festa, nem presentes, nem chá de casa nova, nem... Ou seja, o melhor a fazer é assumir sua condição vegetal e anular-se como uma reles auxiliar da grande família ao seu redor. Mas, algumas mulheres resolvem gritar e tornar público aquilo que é privado. Resolvem dizer que estão vivas e precisam também de trabalho, oportunidade e sexo.
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