Lexopran 10ml

_Dr, tenho desconfiado de mim, e em mim me perdido aos poucos, tenho subtraído os meus passos e ficado estático. Minhas dúvidas se sobrepõem e, já não sei se quero estar onde desejei ou seguir "sempre em frente".



"_Lexopran 10ml, duas vezes ao dia, volte no próximo mês, se houver recidiva, multiplico a receita por 3."



sábado, 28 de agosto de 2010

Sobre o tempo


Adoro lugares com um quê de antigos. Adoro a sensação de que o tempo por ali passou e se deixou estar, com vagar. Imagino os passos, indo e vindo, de muitas pessoas, gerações inteiras, correndo atrás da vida e dela fazendo sua matéria prima. Amores e paixões. Promessas e desilusões. Crimes e dádivas. Na mesma sala de estar... O couro curtido do sofá descaído, a madeira marcada com talhos de faca, a louça terçã, de cor avelã, e se tecidos houver, na amerilidão, o tempo dirá: foi-se a moça bela, foi-se a alvidez da tez. O pai aqui jaz e a criança se tornou rapaz. Sobrou um ledo engano de eternidade, para outros que aqui ainda vivem sua mocidade.

Será que a borboleta lembra que já foi lagarta? Será que a lagarta sabe que um dia vai voar?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Lembranças da última viagem

Nessa parede clara, eu penduro a tralha que comprei na última viagem. Um tanto de figuras emolduradas de pura alegria, lembranças daquele dia, daquela casa humilde que não nos cabia, mas que nos abraçava com suas paredes rotas e suas nódoas roxas da umidade. Manchas que pareciam flores enormes, flores de outono aquareladas em tons rosas e liláses. Queria poder guardar também aquele cheiro de chá com pitadas de limão galego que invadia nossas narinas quando lá tornávamos depois de tanto caminhar. Ou quem sabe, guardar o sabor daquelas broinhas quase feitas de nadinha e tão cheias de sabor, broinhas de milho, salpicadas de anis. A lenha queimando, a canela em pó, o café no ponto, o gato roçando o rabo em nós. A conversa fiada, a mãe e a fiarada, o homem colhendo os ovos pintados e a galinha correndo atrás. Mas o tempo avoa e a digital, tão moderna, não alcança a eternidade dos panos sacudidos no varal.

Belo e invisível

A beleza está em todo lugar. Na mesa posta, na comida ornando o prato, naqueles em torno da mesa discursando sobre o belo,e que cegos, não podem vê-la, só sabê-la. Nem sempre está na TV ou nas passarelas, nem nas grifes ou em seus proprietários, sujeitos muito etários. Mas, olhe bem ao lado e verás, a beleza também passa ao largo, seguindo o passo despretencioso daquele moço. Invisível esfinge suburbana.

Você vai por onde eu penso, não por onde ando



Christian Louboutin

quinta-feira, 26 de agosto de 2010